COP das Quebradas reivindica espaço das periferias na agenda climática nacional e local
Projeto desenvolvido em Belo Horizonte resultou em Carta-Manifesto com 20 propostas levada à COP 30, em Belém, demonstrando os
impactos desiguais que a mudança climática traz aos mais pobres e vulneráveis
Aproximar o debate sobre as mudanças climáticas de quem já sente seus efeitos na pele e dar visibilidade a pequenas ações locais de adaptação e mitigação foram os pontos de partida para a criação da “COP das Quebradas: Unindo Vilas e Favelas por Justiça Social e Climática”, realizada em outubro de 2025 Belo Horizonte (MG).
Organizada por Ana Paula Assunção (PV), atual diretora de Educação Ambiental da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, a iniciativa nasceu da articulação entre representantes da sociedade civil e da Prefeitura de Belo Horizonte. O objetivo foi claro: ouvir e incluir as populações de vilas e favelas nas discussões sobre o meio ambiente e suas soluções, resultando na elaboração de uma Carta Manifesto (com trechos reproduzidos nesta reportagem). O Partido Verde, responsável pela gestão dos parques municipais e da educação ambiental em Belo Horizonte, teve papel de destaque na construção coletiva das propostas apresentadas à COP 30.
Mais do que um evento, a COP das Quebradas foi uma reivindicação de espaço. Pela primeira vez, as periferias de Belo Horizonte ocuparam a agenda climática nacional e global. Realizada nos dias 3 e 4 de outubro de 2025, a conferência produziu 20 propostas que seguiram para a COP 30, em Belém (PA).
“Durante a Semana de Meio Ambiente discutimos os impactos do calor extremo e da elevação da temperatura sobre a saúde, principalmente dos mais pobres. A partir dessas conversas com coletivos, movimentos sociais e outros setores da prefeitura, surgiu a ideia de realizar uma COP das Quebradas, envolvendo moradores dos territórios mais vulneráveis”, explica Ana Paula, também integrante da Executiva do Partido Verde em Belo Horizonte e militante ambiental histórica no município.

Furando a bolha
A experiência de levar o tema da justiça climática para dentro das comunidades foi um sucesso. A COP das Quebradas reuniu 278 participantes, dos quais 80% eram moradores de vilas e favelas e 70% se autodeclararam pretos ou pardos. “Ou seja, atingimos o público com quem queríamos dialogar. Furamos uma bolha institucional ao tirar o debate do campo técnico e político e levá-lo até quem é mais afetado pelas mudanças do clima”, destaca Ana Paula. Durante o evento, os participantes foram divididos em grupos temáticos, inspirados nos seis eixos da Agenda de Ação da COP 30: Energia, Indústria e Transporte; Florestas, Oceanos e Biodiversidade; Agricultura e Sistemas Alimentares; Cidades, Infraestrutura e Água; Desenvolvimento Humano e Social e Questões Transversais.
Rolezinhos temáticos
O convite às lideranças e moradores surgiu a partir dos chamados “rolezinhos climáticos”, visitas realizadas por equipes da prefeitura e da Secretaria de Meio Ambiente às comunidades. A ideia era conhecer o que já vinha sendo feito localmente para melhorar a qualidade de vida — ações simples, mas potentes, que muitas vezes ainda não eram reconhecidas como parte da agenda climática. “Visitamos o Aglomerado Santa Lúcia (Morro do Papagaio) e encontramos jovens que faziam plantio de árvores dentro da favela. No Barreiro, uma área degradada foi recuperada e hoje abriga um parque”, lembra Ana Paula.
Um exemplo emblemático é o de Tiago Oliveira, líder comunitário e fundador do projeto “A Favela Vai Vencer”, no bairro Nova Cachoeirinha. Sua história foi destaque no jornal O Tempo (03/11/2025), na reportagem “Clima muda para todos, mas favelas sentem mais”. Em um terreno antes abandonado, Tiago já plantou 150 árvores — e, reconhecendo a importância do projeto, a prefeitura doou outras 130 mudas em 2023. Pequenas ações, grandes impactos Como lembrou o presidente da COP 30, André Corrêa do Lago, em sua 8ª Carta à Comunidade Internacional, “a falta de adaptação amplia desigualdades, ameaça empregos e pressiona as finanças públicas. Investir em adaptação é um caminho economicamente vantajoso, capaz de proteger comunidades, reduzir perdas e evitar custos muito maiores no futuro”.
A fala resume o espírito do “pensar globalmente e agir localmente”, que passou a ser mundialmente divulgada após a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento de 1992, a Rio-92. “As pequenas ações, quando se somam, geram um movimento de retroalimentação e podem transformar a cidade. É um processo contínuo, em que cada gesto importa”, avalia Ana Paula. diante da elevação das temperaturas.

Manifesto das Quebradas
O trabalho coletivo da conferência resultou em um manifesto contundente, que denuncia como a crise climática chega primeiro — e com mais força — às periferias. O documento destaca o aumento de doenças agravadas pelo calor extremo e a maior vulnerabilidade de crianças e idosos diante da elevação das temperaturas. Mais do que um relatório, a Carta-Manifesto da COP das Quebradas é um chamado à ação, conforme idealizado pela COP 30: um lembrete de que justiça climática anda junto com a justiça social.
"A cada chuva intensa, enxurradas e deslizamentos colocam em risco vidas que há décadas convivem com a ineficiência de políticas públicas. É nas vilas e favelas que falta a água, onde a drenagem não é adequada, o lixo se acumula e outros problemas de zoonoses se complexificam. Nessas áreas também se encontram o risco do avanço da mineração ilegal, o calor extremo das ilhas de calor e as áreas verdes como opções de lazer estão cada vez mais ameaçadas e escassas. Esses impactos não são frutos do acaso, mas da estrutura desigual de um modelo de desenvolvimento que prioriza alguns e detrimento de outros”, traz um trecho do Manifesto.

Conheça as 20 Propostas da COP das Quebradas, divididas nos eixos da agenda da COP30: EIXO
1: TRANSIÇÃO DOS SETORES DE ENERGIA, INDÚSTRIA E TRANSPORTE
1. Apoio e financiamento para promoção do conceito Lixo Zero, além da abertura e manutenção de espaços Lixo Zero nas vilas e favelas
2. Garantia da recolha de resíduos nas áreas mais vulnerabilizadas, incluindo iniciativas de coleta seletiva e compostagem
3. Implementação de infraestrutura verde e azul e soluções baseadas na natureza, com foco na retenção, infiltração e interceptação de águas pluviais nos territórios socioambiental e climático de maior risco socioambiental e climático.
EIXO 2: GESTÃO SUSTENTÁVEL DE FLORESTAS, OCEANOS E BIODIVERSIDADE
4. Ampliação de áreas verdes de lazer e refúgio climático, como parques, jardins de chuva e minis florestas, além da priorização do serviço de arborização urbana nas vilas, favelas, áreas periféricas e de maior risco socioambiental e climático
5. Execução de programas de recuperação e revitalização de áreas verdes e cursos d’água nas regiões periféricas da cidade, priorizando áreas de nascentes e de maior risco socioambiental
6. Ampliação do projeto “Adote uma Nascente” para outros territórios, que tem o objetivo de preservar as nascentes e os cursos de água por meio de cuidados e de manutenção nos territórios, promovendo as parcerias público, privado e a sociedade civil
7. Implementar políticas e projetos de cuidado com animais domésticos e animais de rua nas vilas e favelas.
EIXO 3: TRANSFORMAÇÃO DA AGRICULTURA E SISTEMAS ALIMENTARES
8. Investimento em projetos e políticas públicas relacionadas às unidades produtivas agroecológicas (hortas e agroflorestas, dentro outros) nas vilas e favelas, incluindo estudo de novos formatos de hortas com tamanhos reduzidos (menores de 360 m²) e nas áreas de proteção de nascentes.
9. Ampliação e fomento de espaços de economia circular e de venda de produtos agroecológicos em feiras livres nas cidades, com a participação de expositores de vilas e favelas.
10. Fomento a novos modelos de hortas urbanas e viabilidade do escoamento de produção, considerando parcerias público, privadas e públicas comunitárias.
11. Utilização dos produtos oriundos da agricultura familiar e agroecológica urbanos para abastecer a alimentação das redes públicas de ensino, garantindo o menor percurso entre a fonte produtora e o local de consumo.
EIXO 4: CONSTRUÇÃO DE RESILIÊNCIA EM CIDADES, INFRAESTRUTURA E ÁGUA
12. Planejamento urbano integrado em escala de bacia hidrográfica considerando a criação de comitês de participação popular e controle social na autogestão da água
13. Integralizar a área da saúde mediante ações com outros setores, promovendo a política intersetorial na mitigação dos efeitos das mudanças climáticas.
14. Elaboração e execução de um PLANO MULTIRISCO MUNICIPAL, considerando os eventos extremos e que contemple as áreas mais vulneráveis e vulnerabilizadas.
15. Construção participativa de um PLANO DE AÇÃO DE RISCO PARA EVENTOS EXTREMOS, que escute a população e as pessoas que mais sofrem com as consequências dos eventos extremos climáticos na cidade, considerando inclusive questões de saúde e garantia de assistências e recursos emergenciais para moradores e moradoras de áreas de maior risco socioambiental e climático.
EIXO 5: PROMOÇÃO DO DESENVOLVIMENTO HUMANO E SOCIAL
16. Criação de um Fórum Permanente de Justiça Climática, com participação paritária da sociedade civil e representantes do poder público, com o objetivo de discutir e tomar decisões relacionadas a questão climática emergenciais e cotidianas.
17. Garantir o controle social das políticas de enfrentamento às mudanças climáticas com ações de transparência e prestação de contas.
EIXO 6: CATALISADORES E ACELERADORES, INCLUINDO FINANCIAMENTO, TECNOLOGIA E CAPACITAÇÃO
18. Criação de um fundo comunitário para justiça climática, financiamento e reparação, com investimentos dos recursos oriundos de grandes poluidores e mineradoras, com o objetivo de apoiar projetos comunitários das áreas mais afetadas e de maior risco socioambiental e climático.
19. Investimento em infraestrutura de saneamento em seus cinco eixos (abastecimento púbico de água; gestão de resíduos; esgotamento sanitário; manejo de águas pluviais e controle de vetores) principalmente em vilas e favelas.
20. Fortalecer e capacitar as lideranças comunitárias e as entidades sociais para atuarem no contexto de emergências climáticas e participar ativamente da formulação de políticas públicas.
Conteúdo da Revista Pensar Verde (Dez/2025) da Fundação Verde Herbert Daniel